
A federação formada por PP e União Brasil resolveu adotar a velha estratégia da política brasileira: ficar “neutra” quando escolher um lado pode custar votos. A decisão, comunicada por Dr. Luizinho diretamente ao presidente Lula no Palácio da Alvorada, mostra que, em ano eleitoral, a neutralidade muitas vezes funciona como um confortável muro de onde se observa a disputa sem assumir riscos.
A justificativa é simples: nacionalmente, ninguém quer fechar portas. Afinal, apoiar um candidato cedo demais pode significar perder espaço em um eventual governo adversário. Assim, a federação prefere manter um pé em cada canoa, mesmo sabendo que a corrente política costuma ser impiedosa com quem tenta navegar em direções opostas ao mesmo tempo.
Mas a neutralidade tem limites geográficos bem definidos. No Rio de Janeiro, o discurso muda de tom e o apoio ao pré-candidato Douglas Ruas, aliado do grupo de Flávio Bolsonaro, continua firme. Ou seja, em Brasília a conversa é uma, no Rio é outra. A neutralidade nacional parece funcionar apenas até a placa da divisa estadual.
O roteiro fica ainda mais curioso quando o mesmo Dr. Luizinho aparece em eventos ao lado de Lula, reforça alianças com bolsonaristas no estado e, nesta semana, dividiu palanque com Eduardo Paes durante o lançamento da pré-candidatura de Diogo Talento. Dependendo do evento, da plateia e da fotografia, o deputado consegue estar próximo de campos políticos que, em tese, deveriam disputar espaços entre si.
No fim das contas, a tal neutralidade parece menos uma posição política e mais uma habilidade de sobrevivência eleitoral. Enquanto os eleitores tentam entender quem apoia quem, os partidos seguem aperfeiçoando a arte de estar em todos os lugares ao mesmo tempo. Em um país onde a coerência costuma perder para a conveniência, a federação apenas demonstra que continua jogando conforme as regras não escritas da política brasileira.
Texto: marcoqueimados
