
Em um raro momento de sinceridade que pegou muita gente de surpresa, Michelle Bolsonaro parece ter deixado o roteiro da polarização de lado e resolveu reconhecer uma iniciativa do governo Lula. O gesto foi tão inesperado que alguns seguidores provavelmente conferiram duas vezes para ter certeza de que não se tratava de uma conta falsa ou de uma invasão hacker.
Após elogiar a Política Nacional de Educação Bilíngue de Surdos, a ex-primeira-dama precisou voltar às redes sociais para administrar a reação negativa de parte de sua própria base. Afinal, no ambiente político atual, parece que reconhecer algo positivo do adversário se tornou um pecado mais grave do que qualquer contradição. O problema não foi a pauta dos surdos, mas quem estava sentado na cadeira presidencial no momento do anúncio.
Na tentativa de apagar o incêndio, Michelle argumentou que a defesa das pessoas com deficiência está acima de partidos e ideologias. E, convenhamos, ela está certa. O curioso é que essa lógica, tão sensata quando aplicada à inclusão, costuma desaparecer rapidamente quando o assunto envolve outras políticas públicas. A coerência, nesse caso, resolveu dar as caras por alguns minutos.
A ex-primeira-dama também destacou que a política teria sido construída durante o governo Bolsonaro e apenas concluída na gestão Lula. Ou seja, sem querer, acabou reforçando uma verdade frequentemente ignorada pelos discursos mais apaixonados: políticas públicas não surgem do nada e nem pertencem exclusivamente a um governo. Elas atravessam mandatos, sobrevivem a eleições e, às vezes, até ao fanatismo político.
Por isso, ficam aqui meus parabéns à Michelle Bolsonaro. Não necessariamente pelo conteúdo da explicação, mas pela coragem de admitir, ainda que por um breve instante, que uma ação benéfica continua sendo benéfica independentemente do sobrenome de quem a assina. Em tempos de torcida organizada na política, reconhecer isso já parece um ato revolucionário.
