A decisão que concedeu perdão judicial a Monique Medeiros no caso da morte do menino Henry Borel não fechou o capítulo — só empurrou a história para outro lugar: os bastidores da televisão brasileira, onde a tragédia vira moeda e a dor vira manchete. Enquanto o país digeria o julgamento, profissionais de Globo e Record já tratavam de transformar o caso em produto jornalístico premium. Porque, claro, quando a Justiça fala, a audiência também precisa “falar”.
Nos dias seguintes ao desfecho, equipes do Fantástico e do Domingo Espetacular teriam procurado a defesa de Monique logo após a conclusão do julgamento, ocorrido na última quinta-feira (4). Até aqui, tudo muito “humanitário” e “responsável” — aquele tom de voz que só aparece quando tem câmera ligada. O problema é que, apesar das investidas, ela até o momento não aceitou conversar com nenhuma das emissoras.
A briga pela entrevista ganha contornos de novela: a Record teria colocado o jornalista Roberto Cabrini na operação para garantir uma conversa exclusiva. A Globo, por sua vez, também corre atrás, mirando uma reportagem especial para costurar ainda mais o interesse do público. No fim das contas, não é só sobre ouvir uma pessoa: é sobre quem consegue enquadrar melhor o sofrimento — e vender melhor a narrativa.
A Justiça, no entanto, foi para um caminho específico: Monique recebeu perdão judicial porque os jurados entenderam que ela não teria intenção na morte de Henry Borel. Com esse entendimento, a acusação deixa de ser tratada como homicídio doloso, e o caso sai do radar do Tribunal do Júri. Em português claro: muda o rótulo jurídico, muda o palco — e muda também quem acha que tem “direito” de falar por cima.
E aí entra a parte mais ácida da fundamentação: a juíza responsável apontou que Monique teria sido alvo de uma reação social considerada desproporcional, atravessada por preconceitos de gênero. Foi citada a cobrança em torno da figura da chamada “mãe perfeita”. A sentença, portanto, não trata só de fatos — ela esbarra no julgamento social que costuma vir antes, durante e depois das audiências, como se mulheres fossem responsáveis por tudo… inclusive pelo que não controlam.
Por fim, a Record ainda tenta jogar com vantagem por causa do histórico recente: durante o período em que Monique ficou presa preventivamente, ela concedeu entrevistas à emissora, incluindo uma conversa exibida em 2025. Ou seja: não é apenas “sensibilidade” — é estratégia. E, convenhamos, quando uma tragédia gera disputa por exclusividade, a pergunta que fica é cruel: quem está investigando, e quem está apenas se aproveitando do barulho para ganhar espaço?
