Douglas Ruas o presidente eleito com 44 votos

Douglas Ruas foi alçado à presidência da Alerj com 44 votos daqueles “votos” que não vêm com paz, mas com coreografia. A manhã desta sexta-feira (17) teve o sabor do esvaziamento ensaiado: aliados de Eduardo Paes (PSD) abandonaram o plenário como quem já chegou com o roteiro na mão e decidiu que a disputa, afinal, não merecia nem o testemunho do próprio voto. Se democracia fosse auditada por presença, o espetáculo estaria reprovado.

Tudo isso porque a Justiça — com aquela coragem seletiva que sempre aparece quando o interesse é grande — negou o voto secreto e mandou a escolha ser aberta. Resultado: cada deputado precisou declarar seu voto no microfone, como se a política, por um instante, ainda tivesse algum pudor. Para o bloco que preferia o escuro, o microfone virou faca. E o que era para ser “um processo” virou teatro de constrangimento coletivo, com gente fugindo da própria assinatura.E como se não bastasse a pressa em ocupar espaço, lá vem o padrão: esta é a segunda eleição para a presidência da Casa em menos de um mês. Em março, Ruas já tinha vencido até a Justiça anular. Agora venceu de novo, desta vez com a conquista temperada por boicote e manobra de bastidor.

Ou seja: quando a realidade atrapalha, a política contorna. Quando a Justiça decide, o sistema tenta ajustar o mundo para que caiba no plano.Douglas Ruas, inspetor licenciado da Polícia Civil e filho do prefeito de São Gonçalo, Capitão Nelson, parece aquele tipo de aposta política que cresce rápido porque sabe onde apertar. Seu partido já o desenha como candidato ao governo em outubro e possivelmente como o principal adversário de Eduardo Paes. Coisa de campanha já em curso, mesmo antes da campanha começar: primeiro toma o Legislativo, depois compra o direito de mandar no ritmo dos acontecimentos.

Só que há um detalhe que impede a fantasia completa: Ruas não vai “sentar na cadeira do Palácio Guanabara” de imediato. O Rio está sem governador oficial e, pela linha normal de sucessão, o presidente da Alerj até poderia assumir mas o Tribunal de Justiça decidiu manter o desembargador Ricardo Couto no cargo até o STF definir como será a eleição provisória para substituir definitivamente Cláudio Castro. Tradução: a turma quer mandar, mas a chave está em Brasília — e Brasília, quando resolve, resolve do jeito dela.Por que isso importa? Porque a briga pela presidência da Alerj é só o primeiro capítulo de um embate maior. Controlar o Legislativo significa controlar agenda, visibilidade e influência direta na máquina pública. É o tipo de vantagem que não aparece no discurso, mas aparece no orçamento, no alcance e no recado que cada decisão manda para o eleitor meses antes de ele ir às urnas. Vencer essa etapa não é só “assumir uma cadeira”: é se colocar na rota do poder com antecedência.

E o próximo passo já tem cheiro de pressão institucional: o partido de Ruas deve tentar que o STF mude o rumo que mantém Ricardo Couto no governo do Rio. O julgamento está pausado, mas como toda pausa em política, não é descanso: é espera. E, no fim, quando o Supremo falar, vai definir não só o cargo vai definir quem chega mais forte à largada de outubro.

No fim das contas, a história é simples: não se trata apenas de quem preside a Alerj. Trata-se de quem consegue transformar o processo em vantagem. E, nesta sexta-feira, Douglas Ruas não venceu sozinho venceu com o sistema inteiro torcendo, fugindo e manobrando para que o poder fosse encontrado, de novo, do jeito mais rápido possível.